EDGAR WINTER E O FLASH PROIBIDO

Inserido em: 22 de March de 2017 / Modificado em: 23 de March de 2017

Conheci o som do Edgar Winter quando me apresentaram o vinil Entrance em 71 ou 72 e, de cara, fiquei impressionado com a voz, com o que o cara conseguia fazer com ela, principalmente na faixa Tobacco Road, oitavando na maior facilidade, tanto pra cima, quanto pra baixo.

Me liguei e fiquei esperto, esperando outras bolachas e, em 71, ele lançou o magnífico Edgard Winter’s White Trash, onde estão, para os meus ouvidos, 2 das melhores canções de amor já escritas: Dying to Live e Fly Away

E, em 72, veio o álbum duplo Roadwork, um álbum ao vivo, onde ele convidou Jerry LaCroix pra dividir os vocais e seu irmão Johnny para a guitarra, em Rock and Roll, Hoochie Koo e com Rick Derringer apresentou a mais longa versão de Tobacco Road, com 17 minutos de ponta a ponta, com um duelo Voz/Guitarra sensacional.

Bom, e assim, de álbum em álbum, foi crescendo a vontade de um dia poder ver o cara ao vivo e, se possível, levar um lero com ele.

No final dos 80’s, eu estava em Los Angeles e, como leitor assíduo daquelas revistinhas que informavam os shows que rolariam na cidade, apareceu o nome dele e o local onde rolaria o barulho. E lógico, eu fui e depois do show, consegui trocar meia dúzia de palavras sem sentido bem ao estilo “sou seu fã e ponto”.

Edgar Winter e Uncle Lee

Agora no Brasil!

Anos e vários álbuns depois, entre eles o monstruoso Together, gravado ao vivo com Johnny Winter, que é um álbum referência pra quem gosta de guitarra Rock n’ Roll, em 2009, Edgar Winter veio se apresentar no Brasil, no Palace, em São Paulo e, lógico, por meu contato com um "bro" que trabalhava na casa e que me avisava quando os ingressos começariam a ser vendidos, numa armação, eu conseguia sempre o melhor lugar, a primeira mesa, sem ninguém entre eu e os artistas no palco.

E foi nesse show, onde ele veio com Leon Russell, que o reencontrei e fui ao camarim levar mais um papo que, desta vez, eu pretendia que fosse com sentido, já que nesse momento eu já havia estudado a sua carreira e teria muito o que falar sobre ele e sobre minha admiração pelo seu trabalho.

Mas não rolou do que jeito que eu imaginava.

Foi assim: durante o bis, onde eles mandavam Roll Over Beethoven, no meio daquela loucura onde todos invadiram o gargarejo, vi o Luiz Carlini colado no palco e, aos gritos, consegui que ele também me visse e, ao me ver, ele me chamou e no ouvido e me disse: “vamos invadir o camarim”. E eu topei.

Antes que a música terminasse, fomos até a porta que dava acesso ao nosso alvo e negociamos nossa entrada: deu certo. Conseguimos e foi ali que ouvimos de alguém, importante na parada, a condição pra podermos entrar: “Vocês vão entrar no camarim, vão ficar 10 minutos e não podem usar flash porque o Edgar está com um problema nos olhos e isso, essa proibição, está no contrato”.

Respondemos “sim senhor” em uníssimo e lá fomos, correndo, corredores adentro.

Quando os seguranças permitiram nossa entrada no camarim (tivemos que esperar uns minutos na porta), um deles, vendo minha câmera, mandou a mesma informação “não pode usar flash” e depois do nosso “sim senhor”, em uníssono, entramos.

Chegou a hora

Entramos e eu vi uma das cenas mais tristes que jamais havia visto pela estrada (até hoje não vi nada igual): o camarim completamente vazio, sem ninguém além dos dois – Edgar e Leon – sentados lado a lado no mesmo sofá, totalmente inertes, olhando pro nada, viajando em outra dimensão.

O Luiz me olhou, eu olhei pro Luiz e ele resolveu mudar o clima. Se sentou no meio deles, meio que empurrando os caras e abraçando o Edgar, mandou duas frases matadoras. A primeira: “Puta show Edgar, sou muito fã do seu irmão e tenho todos os discos dele” e a segunda: “Lincoln, faz as fotos”.

Como estava muito escuro – talvez por conta do problema de visão do Edgar – respondi “Não vai sair nada, tá muito escuro” e ele mandou na lata “FAZ COM FLASH”.

E eu fiz... e o Edgar, desmaiou.

Deu a maior confusão! com o clarão, os seguranças entraram pra socorrer o cara e nós, Luiz e eu, fugimos do local sem nos despedir de ninguém.

Na rua, diante da felicidade monstra do Luiz que me dizia “obrigado titio, caraca, só eu tenho uma foto com o Edgar e o Leon no camarim do Palace, U-UH”, me lembrei que tinha retirado o último filme da câmera, antes do bis e, como sempre fazia, deixava esse momento para, mesmo exausto, curtir e ver um pouco os shows que registrava.

E eu falei pra ele “Se eu te contar, você vai me matar” e contei.

Ficamos 2 anos sem nos falar.

Edgar e Leon onstage


Edgar e Leon onstage
Edgar e Leon onstage - Palace, São Paulo.

Mais uma chance

E em 2011, novamente estive perto do Edgar quando ele veio para a Virada Cultural mas, desta vez, o Luiz não estava e eu não tive coragem de invadir – mesmo podendo – o camarim.

Imagine se ele lembrasse daquele flash.

Edgar Winter


Edgar Winter
Edgar onstage - Virada Cultural, São Paulo.


uncle-lee-central-muzic


Uncle Lee é o personagem exclusivo de Lincoln Baraccat para a Central Muzic.
Lincoln é músico, produtor musical, fotógrafo e designer.
Conheça mais sobre seu trabalho no site www.lincoln.com.br

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